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Mostrando postagens com o rótulo Contos

O filho

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por Henrique Matos Olhando para aquele berço improvisado a mulher e seu marido observavam o fruto daqueles nove meses que se passaram. Deitada, ainda fraca e cansada pelo esforço do parto, a jovem tinha sono e tentava cobrir-se para proteger o corpo daquela madrugada fria. Tudo parecia um tanto confuso, mas agora ela era mãe e nada lhe parecia mais glorioso do que esse fato. O homem trouxe-lhe a criança, um menino, que tomou sem jeito nos braços na tentativa de amamentar pela primeira vez. Um bebê tão frágil, os gestos curtos, o choro sufocado, os pequenos olhos que mal se abriam, tinha fome. Ela olhava a criança de forma contemplativa. Sem desviar o olhar, sondou o marido que, de pé à frente, a observava cuidadoso. Seus olhares se cruzaram na cumplicidade do momento, em união por aquela nova vida. O que dizer? Era difícil acreditar, os dois sabiam. E foi sem querer que lhe escapou pelos lábios um pensamento. Num misto de dúvida e adoração a jovem Maria disse: “Esse é Deus...”. A pouco...

Coração peregrino

por Henrique Matos Movido uma vez mais por suas emoções, o Coração saiu em busca dos Sentimentos que há muito lhe eram ausentes. Estava perdido e queria voltar para casa. Sentia falta das coisas que o faziam pleno, cheio de si, dono de tantas das decisões de seu dono. Fraco e sem rumo, o Coração partiu. Longe de seu eixo, andou por muitas terras antes de se perder. Embrenhou-se pela Razão, enveredou em caminhos de Tristeza, Vazio, Sombras, Altivez e Sequidão. Sem sua força vital, tornou-se o Coração companheiro do Egoísta, da Solidão e aliou-se à Incredulidade. O Coração pródigo era seco sem os Sentimentos vitais. Mas cansou-se da vida errante e naquele dia saiu em busca do que lhe preenchesse. Peregrino, resistente a sol e chuva, a alegria e dor, em vales e montes, em jornadas distantes. Alheio ao tempo circunstancial e às dificuldades, trilhou confiante seu destino, à procura do Norte, em busca do alvo que errara tantas vezes. Andou pelo Vale da Dúvida, caminhou só durante as noites....

Uma manhã em Londres – O amor nunca falha

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por Henrique Matos Londres, 7 de julho – O Big Ben marca 9h15 na capital britânica. Nos primeiros números da Woburn Place, dois guarda-chuvas estavam abertos naquela calçada, aguardando pelo ônibus das 9h21. No primeiro deles, um garoto sonolento, com seus onze anos, pequeno e magro, levando nas costas uma mochila encardida e no braço um livro escolar. No outro, protegendo-se da garoa com um guarda-chuvas estranhamente florido, um homem moreno, bigode grosso e com seus trinta e tantos anos também esperava o transporte chegar. No horário previsto surgiu então na esquina o veículo vermelho de dois andares e parando no ponto, recolheu os passageiros. Os assentos, praticamente ocupados, deixavam apenas dois lugares livres. O garoto se adiantou, ocupou o assento perto da janela e acenou para o homem: - Sente-se aqui – ofereceu convidativo – guardei o lugar para o senhor. O homem, com o rosto sério, aceitou o convite mas não disse nada. Ele parecia um bocado inquieto, vestia um casaco grosso...

Um novo reino

por Henrique Matos Relatos desse mesmo dia, em algum lugar de uma época... Essa noite trovoou lá fora, ouvi os estrondos e as águas correntes da chuva despencando do céu. Escutei os brados da guarda marchando pelas ruas, ouvi as velhas ameaças do mal em seus movimentos, as injúrias opressoras contra um inimigo silencioso que não se podia distinguir pelo som e que chegava inesperadamente tomando as ruas com sua presença pacífica. E dizem os poucos que viram que o que era a ordem vigente, passou de repente a mudar seu posto. As armas foram todas ao chão, os soldados mudaram de lado. E o que era escuro foi então clareando. Onde estavam as sombras houve a luz. E com o cair da noite, fez-se o dia reluzente. Ao cantar do galo, todos se levantaram, as ruas foram cheias do perfume do café com pão fresco que saía das casas, as gotas de orvalho eram vistas sobre as plantas, o cheiro da chuva que caiu na terra ainda impregnava o ar e aos poucos os primeiros trabalhadores saíam para o trabalho. Ma...

Cartas do Theo - Faça seu pedido

por Henrique Matos e Emmanuelle Burci Oi vô, tudo bem aí? A mãe mandou eu enviar esse e-mail para mostrar que eu já estou escrevendo direitinho. Não é muito verdade porque depois que eu termino ela vem e corrige tudo, mas aí ela falou que era bonitinho e você vai gostar. Eu falei que não sabia o que escrever e ela falou para pôr qualquer coisa aí porque você ia achar uma graça de qualquer jeito. Eu não consegui pensar em nada e comecei a chorar, daí ela falou que tudo bem e pediu para contar como foi a viagem no feriado com a tia e o tio. O feriado foi muito legal, viajamos para a cidade da tia que é longe pra caramba e fez um sol de rachar. Lá é diferente aqui da nossa cidade, as pessoas andam mais devagar e não ficam correndo e coçando a cabeça de nervoso que nem o pai. Não tem muito prédio, nem muito ônibus e nem fumaça. Tudo é pertinho, dá para ir de carro sem dormir no caminho e a gente pode brincar na rua sem ter um monte de adultos por perto. A gente saiu e brincou e jogou bola ...

Quantos pães?

por Henrique Matos - Trinta moedas de prata! - Trinta? É muito pouco, quero mais. - Bah! Não me faça perder tempo Iscariotes, são trinta moedas que te ofereço, nada mais! Não entendo essa sua incerteza, se o tal Jesus é mesmo o Cristo que você segue há tempos, capaz de “salvar o mundo e nos libertar do mal” – esnobou com ironia – porque afinal o receio em aceitar minha oferta? Só vai lucrar com isso. - Bem, na verdade eu seguia um salvador que viria nos libertar dos romanos e fazer nosso povo livre, mas ele só fala em perdão, amor, salvação, tudo uma grande bobagem. Certos estão os rebeldes, precisamos lutar! Só que ao mesmo tempo, ele fez tantos milagres... - Milagres! Milagres! Parece doença, esse povo só sabe falar disso agora. Quanta blasfêmia! Imagine, um carpinteiro galileu se dizer o Messias! - Todo o povo crê. Os outros onze também. Eu só cuido das finanças... - Não vou perder meu tempo com você, traidor imundo! Quer ou não a prata? - Tudo bem, eu aceito – disse após olhar para...

O hospital dos sãos

por Henrique Matos "Somos pela religião contra as religiões" (Victor Hugo). Conto-lhes, por uma vez essa história, que aconteceu em certo ano aqui na capital, onde fora fundado o Hospital dos Sãos. A monumental obra tivera seu início anunciado e em apenas seis meses erguera-se como a construção imponente, que deixava admirado todo o povo do local. Para a cidade vieram, segundo fontes, os médicos mais bem estabelecidos da nação, diplomados com honras e proprietários de tamanha autoridade em suas teorias clínicas. Foi então fundada a clinica, famosa por seu corpo médico excelente e deveras por seu propósito singular e inovador: o Hospital dos Sãos empenhava-se em atender apenas os cidadãos de saúde indiscutivelmente impecável. Ali, eram atendidos aqueles que não careciam de tratamento e gozavam de saúde intacta. Nada de enfermos, coxos, deficientes ou indivíduos carentes, a clinica existia para hospedar os que não possuíam registros em outros estabelecimentos concorrentes e par...

Um instante

por Henrique Matos Ele abaixou a cabeça e retirou-se angustiado. Seus olhos marejaram, a garganta travou e seu peito doía incessantemente. Então se isolou, entregou-se e chorou. Percebeu o que havia feito, que grande bobagem! Como era possível? Há poucas horas suas palavras eram outras, sua firmeza surpreendia, sua fé impressionava. Era uma rocha! Mas agora, era a escória dos homens, um pecador imundo, em nada o santo ou escolhido dentre tantos. As lembranças dos últimos meses lhe vinham à memória. As grandes aventuras, as experiências de uma nova vida, pescador de homens. Eram muito nítidos aqueles três anos. Surgira entre eles mais do que um relacionamento disciplinar de mestre para servo, tornaram-se amigos íntimos. Partilhou suas dificuldades, foi franco com suas dúvidas e sentimentos - por vezes até controversos. Foi fraco, foi homem, foi filho e foi irmão. Viajaram juntos, percorreram toda a Galiléia e a Judéia. Dormiram no deserto, andaram milhas e milhas, comeram da mesma panel...

Jumentologia

por Henrique Matos   (5º texto da série "Plantar e Colher - Princípios Bíblicos") Até agora estou desconcertado, meio eufórico, mas me conforto em saber que eu sou parte da promessa. Você pode ler na sua Bíblia, há claramente uma descrição a meu respeito em uma das profecias que fala do Cristo (Zacarias 9, 9). Mas para esclarecer os fatos, vou lhe contar um pouco de minha história... Oxente! Eu estava lá, tocando minha vidinha em Betfagé, próximo a Jerusalém, sossegado, na minha. Sempre tranqüilo, ao lado de minha mãe naquela humilde cidade da Judéia. Mas aí um dia, as coisas mudaram para nós. Chegaram dois homens e sem mais nem menos começaram a desamarrar mâínha e eu do poste onde estávamos presos. Já iam nos levando embora quando outros homens ali do vilarejo perguntaram onde iam aqueles cabras com dois jumentos que nem eram deles. Tiveram ali um dedo de prosa, chegaram em uma conclusão e finda a conversa continuaram levando a gente em direção à entrada da cidade. "Qu...