terça-feira, 27 de novembro de 2007

De mudança

Amigos,

Depois de quase cinco anos usando o serviço do Blogger, essa missão está de mudança. A partir de agora, todo o arquivo de mensagens estará nos servidores do WordPress. Para acessar:

www.missaovirtual.com


Abraços e obrigado pela estadia.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Pequenas lições

por Luiz Henrique Matos

Até outro dia ela cabia no meu antebraço, seu tamanho exato. Hoje, eu mal consigo segura-la nos braços. Poucos meses se passaram mas muita coisa mudou. Na essência, é um ser humano em evolução tão intensa e mais rápida do que eu posso assimilar.

Hoje mesmo, durante o café da manhã eu a observava brincando no chão da sala, deitada de costas sobre o edredom, assistindo pela qüinquagésima vez aos clipes do “Cocoricó” (cuja trilha, confesso, canto entusiasmado entre o barbear e um nó torto na gravata).

- Como cresce rápido, não é mesmo dona?

- Poizé. Num instante eles cresce. Igual a vida. Quando a gente vê, rapidim, tudo já passô (sic).

Sotaque mineiro, analfabeta, cheia de razão, recolhia a louça de ontem espalhada sobre a mesa. Falou, é verdade, aquilo que todo mundo já sabe. Mas com o peso de setenta anos nas costas, filhos adultos, netos, um bebê adotado, viúva… imagino que suas histórias e lutas sejam interessantes. As dos antigos sempre são. Imagino que suas afirmações tenham sempre um peso maior de verdade e sabedoria do que essas conclusões da minha imaturidade.

Fugaz. O tempo voa, a vida passa e o que, de verdade, é importante fazer? Seria o desafio melancólico da auto-ajuda que questiona onde estão empenhados nosso tempo, dinheiro e esforços? Ou o melhor mesmo é viver despreocupado e deixar que as coisas aconteçam por si só?

Não sei dizer. Ou, prefiro não decidir isso agora. Em ambos os casos, não dá para seguir sozinho.

Ela passa por trás da mesa, percebo que calça o par Havaianas antigas da minha esposa. E volta então para a cozinha, onde lava, passa, prepara a comida que fará no almoço.

E percebo, entre uma mordida no pão sovado e um gole na xícara de leite frio com chocolate, que a sabedoria não é privilégio da “gente letrada”, mas dos que observam, e vivem, e seguem com dignidade a vida que nos absorve.

“Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. Esteja sempre vestido com roupas de festa, e unja sempre a sua cabeça com óleo. Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol. O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria.” (Salomão, homem que observou, já velho, em Eclesiastes 9:7-10).

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Na falta do que dizer...

por Luiz Henrique Matos

Faz umas quatro horas que estou tentando escrever algo aqui nessa tela. Já comecei quatro textos diferentes, esse é o quinto. Acho que agora vai. Acho.

O último eu parei duas vezes. Na primeira, para dar a mamadeira para a Nina, que chorou lá do berço pedindo seu leitinho. Altíssima prioridade. Na segunda, também pela Nina, que resmungava os primeiros gemidos dando sinal de acordaria em breve.

Pensei em deixa-la ali no berço, afinal já passam das onze e é hora de bebê estar dormindo. Mas não resisti. Olhei aquele rostinho, aquele olhar de quem acorda e ainda dorme me sondando, o sorriso banguela se construindo no rosto e a mãozinha vindo na direção das minhas bochechas. Ela me aperta. Mão macia. Mas precisa cortar as unhas. Ela pede colo. Peguei-a e vim para a sala brincar. Isso sim, mais importante do que qualquer palavra mal escrita numa tela de computador.

Me veio à mente então uma pérola: mais importante do que as coisas passageiras que depois podem ser feitas, é dar valor ao que passa rápido e quando vê já não se pode mais fazer (éca, ficou péssimo isso).

Ela só tem cinco meses, mas sinto que a cada hora longe de casa, perco um novo sinal de seu crescimento. Ela já tem cinco meses.

Enquanto escrevo, ela me sonda por cima da tela. Sentada na cadeirinha de balanço (que preferiu, preterindo meu colo), olha insistentemente para mim enquanto narro em voz alta as palavras que despejo nesse teclado. Ela gosta. Ela ri timidamente. Ela não está com sono, definitivamente.

Que valor tem o tempo, afinal? Que prioridade tem as coisas tão urgentes, perto do que é mais importante? Quero saber, um dia lá na frente, que fiz a coisa certa. Que as escolhas, as mais simples, foram as que causaram impacto e tornaram nobre e valioso o viver. Que o olhar apaixonante e curioso de um bebê é, no fim das contas, maior do que o prazo das tarefas no escritório, maior do que o sono, melhor do que o melhor clássico de futebol na tv.

Falando em clássico, a música de Ravel toca ao fundo, completada pela trilha sonora do ritmo da chupeta colorida que estala naquela boquinha vermelha.

Ela me olha fundo nos olhos. Como faz a mãe dela, quando quer me dizer algo sem precisar abrir a boca. E vejo nesse olhar sua inocência, vejo minha filha, me vejo, sangue do meu sangue, vejo um bebê, vejo a mulher que um dia virá a ser (e aí já não quero mais ver nada porque isso vai longe demais pro meu gosto).

Agora ela observa a própria mão, abrindo e fechando. Ela raspa as pontas dos dedos no estofado para saber a textura que tem. Aprende algo novo. Ela tenta alcançar algo que está pendurado no arco da cadeira e arrancar dali a todo custo. Ela se revira toda para saber como ficar, cair, não... ixi, peraí, preciso arrumar... ufa, foi por um triz! Ela tenta engolir um brinquedo maior do que sua cabeça. Ela baba pra caramba.

Pensando bem no primeiro parágrafo dessa história, acho que o texto não dará em nada, senão nesse despejar de palavras e sentimentos que, a bem da verdade, não dizem muita coisa para o cristianismo de alguém. Talvez até digam ou sirvam para tratar de prioridades, para pregar uma vida mais simples e despretensiosa, para dizer que as coisas realmente valiosas – e divertidas também – não estão em nossa conta bancária (ah, mas não mesmo, dirão os endividados – mas você entende do que estou falando).

Acho que ela é destra. Puxou o pai?

Pensando bem, acho que o melhor a fazer é abandonar esse computador e voltar a brincar com minha princesinha. É, filhos nos dão essa vantagem, podemos voltar a ver desenho animado e brincar de ser criança sem que os outros adultos nos julguem idiotas. Pelo contrario, até acham bonito, nobre, pedagógico, estimula o sei-lá-o-quê da criança. Eu só sei de uma coisa: é bem legal.

Ela tem cosquinhas. Ela gosta do meu colo... (ou talvez não tenha muita opção). Ela gosta de cheirar um paninho, igual aquele personagem do Snoopy. Puxou a mãe? Opa, ela pediu colo. Agora está aqui deitada nos meus braços e com a cabeça recostada sobre meu peito. Nada paga essa sensação. Volto a um raciocínio antigo, mas que me visita toda semana: Deus nos dá a chance de ter filhos para que possamos, numa minúscula fração, entender o que ele sente como pai.

Ela não fala nada – às vezes acho que ela acha que fala –, só sorri, chora e resmunga de vez em quando. Mas nem precisa, você sabe bem disso. É que... ahn, aqueles olhinhos, aquelas mãozinhas, aquele sorrisinho... bem, isso não tem nada de diminutivo. Na falta do que dizer, o momento diz tudo.

Talvez, voltando ao raciocínio do parágrafo aí de cima, talvez isso também seja a grande lição da paternidade divina. Ele contempla, ele prioriza, se enche de orgulho, sofre, ele sabe... sim, sempre sabe e ama sob qualquer condição.

Pensando... bem, agüenta firme aí que eu vou curtir minha cria.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Colos, cólicas, chavões e uma crônica de continuação

por Henrique Matos
(Continuação da carta anterior)

- Amor, vem cá! Aconteceu uma coisa estranha...

Eram os primeiros minutos do dia 19 de março de 2007, madrugada de domingo para segunda-feira. Eu acabara de fechar a tela do computador onde escrevia minha última mensagem, falando sobre minha esposa, a beleza da gravidez e as pequenas surpresas que Deus nos faz. Já calçava os chinelos e me preparava para ir para a cama quando ouvi sua voz vindo lá do banheiro. "Coisa estranha", que raios seria isso? Corri para checar.

A bem da verdade, estranho era ouvi-la falar assim. Vindo do banheiro, chamados mais comuns diziam respeito a "Amor, me traz a toalha?", "Por que você não abaixa a bendita tampa do vaso?" ou, tão comuns quanto, desesperos hitchcockianos que berravam "Henrique-corraqui-pelamordedeus-porque-tem-uma-mariposa-enorme-no-box!".

Cheguei no banheiro, ela estava de pé em frente ao vaso, uma expressão curiosa naquele rosto meigo e o dedo apontando para algumas gotas avermelhadas no tapete. Olhei para ela, olhei para o tapete, olhei para ela:

- É, neguinha, das duas uma: ou estourou sua bolsa ou sua bexiga está frouxa...
- Bobo.

Alguns telefonemas e uma hora depois, preparávamos as malas para seguir até a maternidade. Nada garantia que a hora do parto havia chegado, mas nada também nos fazia acreditar no contrário. Nove meses se passaram e aquele me parecia o primeiro momento real dessa gravidez.

Malas nas mãos, chaves no bolso, caminhávamos pelo corredor rumo a porta da sala quando nos entreolhamos. Olhamos para a casa que deixávamos e concordamos:

- Quando voltarmos... seremos três.

Chuva. Escuridão na rua. Vai devagar! Hospital vazio. Acabou a energia, subiremos de escada. Enfermeira com sono. Boa noite. Exames estranhos. Telefonemas para a médica. Vai nascer. Ai, ai, ai! Cadastros infindáveis na recepção. Minha esposa saindo pelo corredor em uma maca. Elevador parado, mais escadas. Eu recebendo uma trouxa com roupas. Vestiário médico. Touca, máscara, protetores. Centro cirúrgico. Nossa amiga Amanda na sala de cirurgia. É bom ter um rosto conhecido por perto. Olá, essa é a equipe médica. Como vão, tudo bem? Ar-condicionado gelado. Cadê o fotógrafo? Oi amor, você está bem? Está nascendo! São três e vinte da manhã. Estava com o cordão enrolado no pescoço. Tire as fotos! Esqueça as fotos, quero vê-la nascer. Nascendo, nascendo, está saindo... Olha a Nina, que bebezão! Linda, maravilhosa! Vão cortar o cordão. Um beijo na Manú. Parabéns, agora você é mãe. Te amo. Eu também, muito. A enfermeira vindo. Olhe mamãe, sua filha! Que linda. Veja papai, sua filha. Posso pegar? Só se for rápido, ela precisa ir para o... Tá bom, é rapidinho.

Eu a tomo nos braços, o tempo pára, ela aquieta, meu coração acelera, a respiração ofegante, aquele rostinho, eu a observo estático, meus olhos marejam, lacrimejam, se fecham, eu choro e choro. É verdade, eu sou pai. Meu Deus, obrigado! Ela é sua, meu Pai, ela é toda sua. Obrigado.

- Oi Nina, minha filha, eu sou seu pai, seja bem vinda! – e eu contente por ter dito o que planejei.

As horas que se seguiram foram de algum sentimento que até agora não sei dizer. Vivenciei todos os chavões que uma canção romântica poderia expressar. “Uma sensação indescritível”, “sentimento único”, “amor que rasga o peito”... tantos que quase me via num balbuciar sertanejo. Num transe abobado, eu conversava animadamente com enfermeiras, seguranças, manobristas e comigo mesmo.

Enquanto minhas mulheres não vinham, sentei sozinho naquele quarto escuro. Eram quase seis da manhã quando abri meu bloco de notas e tentei escrever os detalhes sobre as últimas horas que vivi. Não consegui. Desde então, venho pensando em uma forma de registrar os momentos, as emoções, os passos daquela noite para que minha memória fraca não falhe ao tentar lembrar de um dos dias mais incríveis da minha vida.

Foram 39 horas ininterruptas, acordado e vendo minha vida mudar. Amigos, familiares, gente querida nos cercando, o telefone tocando. E depois desse dia, já passaram-se mais de dois meses. E vemos que as semanas seguem e nos levam aos passos inevitáveis de todos os pais, com os choros indecifráveis, colos, cólicas, listas de dúvidas para o pediatra, leite a cada três horas, corridas desesperadas para o hospital, livros de orientação, uma vontade de ter aquele bebê grudado em nós para não deixá-la desprotegida.

Eu, na verdade, queria poder carregar as duas no meu colo e permitir que elas se sentissem seguras. Mas não tenho bíceps e capacidade para tanto. Aliás, nem mesmo tenho a segurança que gostaria. Isso não está em mim, apesar da pose. Isso sim, eu sei, encontro no bom Pai que, nesses dias, está nos ensinando a ser pais.

E eu queria também escrever uma carta. Duas, na verdade. Uma para a nova mãe que vi nascer naquela noite. Outra, para a filha que verei crescer sob meus olhos atentos. Para minha esposa, pensava em registrar todo sentimento, amor, respeito, carinho, apoio, dedicação e tanto mais de coisas que gostaria que ela soubesse que eu sinto e quero viver ao seu lado. Para minha filha, pretendia deixar os grandes conselhos e princípios que, imagino, ela deverá ter, e assinar de próprio punho tudo o que sinto, penso e sonho para sua vida. Mas não consigo.

Foram dias de rabiscos mentais e tentativas vãs. Frustrado, demorei a aceitar a falta de inspiração, quando era justamente essa que não me faltava. Me vi então diante de uma única resposta possível para esse momento. Não, não foi num versículo bíblico como era de se esperar, tão pouco foi em uma frase devastadora de Shakespeare e ainda menos em um verso derradeiro nalgum poema de Fernando Pessoa. Foi sim, outra vez, num velho chavão, que encontrei orientação: “essa história não se escreve, essa história se constrói”. Ora, detesto chavões. Mas são eles mesmos, como diria um pensador, “uma verdade desgastada”.

Pois é, para minhas amadas, espero um dia ter mais do que verdades gastas para declarar. Espero e me esforço por um poema na ponta da pena para poder lhes escrever. Ao longo da vida juntos, nos gestos da rotina, nos presentes, nas flores enviadas de surpresa, nos passeios de fim de tarde, nas orações feitas à mesa, nos clássicos momentos no sofá, na corrida cotidiana que insiste em acelerar, enquanto trago o leite, o pão e o jornal do domingo de manhã, enquanto vejo o futebol na TV, o programa infantil ou a novela das oito. Nos nossos dias, às minhas queridas espero poder escrever e renovar minha declaração apaixonada.

Continuo acreditando no que agora testifico. E sigo também, na observação contemplativa daquele pequeno tesouro dormindo no berço e imaginando que o Criador fez uma vida nova brotar no ventre de minha Manú. A Nina que nasceu há dois meses e que não tem mais fim, é eterna, é assim, ora bolas, a eternidade divina frutificando do nosso amor.

E encontro novamente paz, em uma verdade nada desgastada, que proclama: “Eu te louvarei, porque de um modo tão admirável e maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado, e esmeradamente tecido nas profundezas da terra. Os teus olhos viram a minha substância ainda informe, e no teu livro foram escritos os dias, sim, todos os dias que foram ordenados para mim, quando ainda não havia nem um deles.” (Salmo 139:14-16).

sábado, 24 de março de 2007

O amor, um calção e gestos primitivos (cinco minutos antes de minha vida mudar)

por Henrique Matos

Lá fora na rua, um grupo festeja. Não sei o motivo, mas aqui quieto na sala de casa, dou risada ao imaginar que essa gente deve ser engraçada. Ouço as risadas, as palmas, a gritaria alegre de algumas pessoas reunidas e fico pensando que Deus tem uma pureza engraçada. Ele nos dá as melhores experiências e lições de vida justamente quando estamos desprovidos daquilo que tanto perseguimos para ser felizes.

Afinal, quem é que precisa de mais do que uma gargalhada para entender uma porção da felicidade? Quem é que precisa de mais do que um escorregão para encontrar ensinamentos a respeito da vida?

E percebo por essas, que o que mais atrai nas pessoas são justamente os gestos primitivos e tão naturais a nós. E percebo por outras, que necessidades vitais também estão na capacidade de rir, cantar, brincar um pouco, abraçar os amigos, comer à mesa com a família. Nos pequenos momentos que nos distraem daquilo que julgamos ser o que de fato importa, nem vemos que, ora bolas, o que importa de verdade está ali ao alcance de um gesto, uma palavra, um olhar, às vezes até de um silêncio.

Gestos humanos, primitivos. São condições à própria vida. Me parecem os tipos de valores e sentimentos que nos formam, independentemente das épocas, da história, desde o princípio. É o que nos faz o que somos, criaturas moldadas à imagem e semelhança de um Deus admirável.

* * *

Aqui dentro, mudo de assunto mas não de conclusão. Observo por um instante, deitada num colchão no chão da sala, a mulher da minha vida. Que cochila. A sutileza de seus gestos, a respiração leve, os cabelos soltos meio bagunçados sobre a fronha de estampa verde xadrez. Uma almofadinha sob a barriga para sustentar os nove meses de gestação. Ela espera por nossa filha. “Puxa, amanhã pode ser o dia em que seremos pais!”. Ela veste meu calção branco – sei lá eu o porquê de ela fazer isso, mas estou certo de que ela o veste da maneira mais charmosa e honrosa que aquele calção velho jamais poderia desejar (partindo do pressuposto, evidente, de que os calções são dotados de algum desejo, honra ou vaidade).

E aqui, apaixonado outra vez mais, acho curioso esse sentimento que nos leva a acreditar e desejar ter uma vida inteira ao lado de outra pessoa. Eu sinto isso. Quero passar ao lado dessa menina todos os meus dias, minhas alegrias e dores, minhas dúvidas e conquistas, meus sonhos e falhas, minhas noites de sono repartidas em uma cama. Cumprirei meu voto de “felizes para sempre” e, sem esperar que chegue o sempre, seremos felizes todos os dias.

Lembro, por um pouco, de alguns retratos de infância que víamos juntos há alguns dias e penso então num belíssimo futuro, no tempo que envelheceremos lado a lado, de mãos dadas, dois heróis da vida simples sentados juntos à mesa. Mas não qualquer mesa. Será uma mesa grande e velha, de madeira já gasta, posta com comida farta, doce de leite e suco de frutas, à espera dos filhos e netos para um almoço no domingo.

Bom, vou dizer uma outra bobagem, mas acho até que é desses detalhes que se preenche o amor. Talvez eu esteja mesmo tendo algumas variações, mas penso aqui que um sentimento precisa de mais do que um significado e um dicionário para ser real. Para ser real ele tem que ser vivido. E o que se vive não são palavras ditas, não ditas, malditas ou escritas, é a vida. Coisas do cotidiano, vitórias extraordinárias, derrotas nem tanto (bem, assim se espera sempre com otimismo). É de tudo que se compõe a vida.

Ela respira fundo, me olha sonolenta. “Sobre o que você tá escrevendo?”. Eu olho para ela, olho para a tela. “Sobre a vida, sobre Deus, família... essas coisas”. Vira de lado, dolorida, coitada, a barriga pesa. Cochila outra vez.

Não, não é uma brincadeira essa história de casar e construir uma família. Isso é um gesto de honra. Honra, reforço a expressão, outra palavra cujo significado pouco se vive nesses nossos dias de relações casuais, convicções hedonistas, falsas verdades e calções brancos dotados de sentimentos.

Enquanto escrevo, vejo o pedaço de metal dourado que me enlaça um dos dedos – o anular, cujo nome sempre me esqueço – e penso que, outra vez, uma coisa tão pequena e arcaica, me faz lembrar dos sentimentos, os sonhos, os planos, a entrega e a decisão de uma vida inteira que estão empenhados nessa aliança.

Sim, honra e amor, Deus e o homem, as amizades e risos, os sonhos e nossos sentimentos primitivos... Sim, o eterno é a promessa de uma aliança.

* * *

PS.: Escrevo agora, depois de seis dias, para a última revisão desse texto. Foi que, nem cinco minutos depois do ponto final dessa carta, nos primeiros instantes do dia seguinte, ouvi minha esposa chamando, agora lá no quarto. Sua bolsa amniótica havia rompido. Deixei o computador como estava e corremos para o hospital, para ver, dali três horas, nossa pequena Nina surgir nesse mundo. Era real, seríamos pais no dia seguinte. Continua.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

As cegonhas não existem

por Henrique Matos

- Os pais morrem de aflição quando se fala na limpeza do umbigo do bebê, mas é simples. Você deve segurar o pequeno pedaço do cordão e com uma haste de algodão embebida em álcool a 70%, limpar a base do umbigo fazendo um movimento circular e também ao redor num raio de dois centímetros...

“Será que serei um bom pai?”, era o pensamento que me ocorria. Enquanto ela falava, eu anotava, tentava absorver tanta informação quanto me fosse possível, mas minha mente não conseguia fugir desse questionamento sem resposta. “Foco Henrique, foco!”.

- O leite materno é fundamental. É incrível, a mãe produz um leite específico para nossa espécie. Nesse alimento estão todas as vitaminas que a criança vai precisar nos seis primeiros meses de vida. Por isso, mamães, é preciso estimular a produção de leite. O aleitamento é importantíssimo. Mas tudo funciona como uma fábrica, se acabar a demanda, acaba também a produção, o estoque seca.

“Demanda, fábrica, produção... empresa. Vou conseguir sustentar minha casa, dar o melhor para minha família? E se um dia eu perder o emprego? Preciso fazer as contas. Não quero que falte nada para elas”. Fulana, Sicrana, Beltrana... as professoras entravam e saíam daquela sala apertada no curso de gestantes, o ar-condicionado fazia um apito inconveniente, eu brigava com aquela persiana que não fechava direito e minha mente teimava em outras perguntas fora de contexto.

Lá em casa, o quartinho já está pronto, como um ninho montado cuidadosamente para abrigar um filhote. Olho para aqueles móveis, vejo aquelas roupas em miniatura penduradas no varal, aquele perfume inconfundível. “Por que demora tanto pra nascer?”.

- Muito bem, agora os maridos peguem esse bastão e passem nas costas de suas esposas. Façam massagem nos ombros, desçam pela lateral... iiiissso, passem também na região lombar. Lembrem-se, homens, elas estão carregando um peso, é importante que fiquem relaxaaadas...

“O que está passando pelo coração dela? Acho que vai ser uma mãe excelente. Tanto amor, cuidado, tanto carinho, a determinação... ela tem valores que eu não tenho, tomara que prevaleçam nessa educação. Ai, tomara que não sinta muita dor. O parto vai ser bom, ah será”. Eu pressionava o massageador sobre seu corpo, com receio por não machuca-la, eu a tocava querendo que sentisse meu carinho, meu amor, minha vontade de mostrar que estou presente, na mesma passada, de mãos dadas, desejando sustentar aquele peso no lugar dela.

- Peguem a boneca, tirem o macacãozinho e a fralda. Segurem de barriga para baixo, apoiando o bebê na palma de suas mãos e no braço. Suavemente, joguem a água morna com sabão sobre o bebê. Muito cuidado com os olhos e ouvidos. Sim, pode molhar o umbigo que não tem problema. Vistam com cuidado, a fralda não pode ficar muito folgada, não precisa esquentar tanto o bebê, a pomada, o cotonete, o sabonete glicerinado... agora troquem tudo de novo.

“É de verdade... Não é uma brincadeira de casinha, é de verdade! Que boneca que nada, tem uma pessoazinha nova dentro daquela barriga. Não vai simplesmente esvaziar e voltar ao que era. Em poucos dias teremos uma filha nos braços, uma criança dentro de nossa casa para o resto da vida, um bebê. Ai que frio na barriga, que coisa!, que vontade de chorar...”.

* * *

Minha filha nasce daqui alguns dias – talvez hoje, se assim resolver – e, como eu bem previa desde o início, os nove meses findam e eu não tenho a menor idéia do que é ser pai. “Serei um bom pai?” é o que fico encucando enquanto uma avalanche de sentimentos, novos e velhos, me atropelam.

Estou com medo. Estou feliz. Estou ansioso. Entusiasmado. Estou apreensivo. O que é mesmo “apreensivo”? Estou tranqüilo. Curioso. Estou pronto. Estou nada. Ah, acho que estou. Inseguro. Confiante. Alegre. Apaixonado. Estou marido. Estou me tornando um pai.

Ai caramba, pai!?

E quem é que vai me dizer o que fazer? Alguém aí tem um manual de instruções?

Bem, da maneira mais tola imaginável, tenho aprendido que nessas horas em que nenhuma das direções para onde olho me aponta um caminho, acabo mesmo apelando para o alto. Não, eu não busco um super-herói (essa tentativa já foi em vão). Como diria um rei antigo chamado Josafá: “Meus olhos estão em Deus”.

Sim, em Deus sempre há uma resposta. Um novo fôlego me enche os pulmões, a alma, o espírito. Percebo que apesar de mim mesmo, a revelação da verdade eterna se faz presente nesse ponto culminante.

Estou em paz.

É consolador saber que tenho um Pai que me guia por esse caminho desconhecido. Um Pai satisfeito em ensinar. Sua lealdade inabalável. Carinhoso e presente. É algo sobrenatural pensar que Ele também é o Pai dessa criaturinha, uma vida nova que nasceu como fruto do amor entre minha esposa e eu. É assustador pensar que Ele está nos comissionando para conduzir uma pessoa diante de uma vida inteira, num mundo que parece perecer a cada velho novo dia. Caberá a nós guia-la no caminho. Caminho?

Estou perdido.

Mas que caminho é esse? Que credibilidade eu tenho se sou eu mesmo quem tantas vezes tateio na escuridão tentando encontrar uma luz por onde seguir? Que verdades, que princípios, que sementes lançarei nessa terra fértil e pura? Que pai serei?

Fico tendo desses devaneios. Em meu coração, eu só queria que ela soubesse que já a amo, que já está em minhas orações há anos. Que nunca nos vimos, mas já faço hoje qualquer sacrifício por ela e pela mãe. E penso a todo instante no momento em que nossos olhos se encontrarão pela primeira vez e, bobo que sou, direi: “Oi Nina, seja bem-vinda ao mundo. Muito prazer, eu sou o seu pai”. Teremos muito o que conversar.

Estou sonhando.

Quero que ela saiba tomar suas próprias decisões, fazer escolhas boas. Que ela seja boa. Sonho que ela tenha um caráter irrepreensível, seja bonita, que se firme em princípios eternos, seja meiga e de olhos brilhantes, que ame a Jesus Cristo, que use vestidinhos com detalhes floridos. Sonho que ela ame as pessoas, que goste de brincar comigo e de deitar sobre meu peito enquanto vejo a TV. Sonho que ela mude a sociedade em que viverá, que ela corra na minha direção e se jogue nos meus braços quando eu chegar em casa à noite. Sonho que ela tenha grandes sonhos! E espero que durma bem a noite inteira para eu continuar sonhando. Sonho um novo mundo para minha família, com passeios e viagens perto da natureza. Quero uma família grande, mais filhos, uma casa ensolarada – como essas dos comerciais de margarina – e minha esposa e eu sentados juntos na varanda enquanto as crianças brincam no jardim.

Sim, eu sonho e creio que ensinaremos coisas boas a ela. Será uma pequena menina, uma grande mulher. Eu quero, sim meu Deus, ah como quero, que ela seja uma pessoa melhor do que eu!

Meu Pai, será que serei um bom pai?

Estou em dúvida.

Acredito que nunca saberei. Dizem os antigos que saberei sim, quando vierem os netos. Mas isso é coisa distante, nisso eu nem penso agora. O que percebo é uma renovação nos meus sentimentos empoeirados de fé, esperança, vida. Talvez brote daí essa confiança maior do que eu mesmo. Nessa hora em que eu forço a visão para que o foco esteja correto, imito aquele rei e volto meus olhos inteiramente para Deus. Acreditando ser perfeitamente possível, penso lá no fundo: “Pai, vá na frente, eu vou te seguindo”.

Estou grato. Tenho aprendido que a felicidade tem muitas faces.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

À beira da cratera

por Henrique Matos



Sexta-feira, 12 de janeiro de 2007. Uma história real.

- Corre! Corre! A gente precisa descer agora!
- Ahn?

Enquanto a gritaria e o pânico reinavam, meu gene mineiro prevaleceu e o sossego costumeiro me fez tirar metodicamente os fones de ouvido, ajeitar os fios sobre a mesa, fechar as telas do computador, afastar a cadeira, levantar devagar, pegar minhas coisas na gaveta e pensar se era realmente necessário tanta urgência e gritaria. “Isso é exagero, coisa de mulher...”, pensei na hora. Mas ainda assim resolvi seguir o fluxo e descer pelas escadas do prédio. Dezessete andares, rapidinho! E lá pelo décimo as minhas panturrilhas já doíam.

No caminho, degrau por degrau, eu tentava entender a razão do alvoroço. Em cada lance de escadas uma nova multidão surgia pelas portas e se juntava ao fluxo gravitacional. Para baixo e avante! Os mais heróicos ajudavam os mancos. Os pacientes estimulavam os retardatários. Os apavorados passavam direto pelas frestas, “não pára, não pára, sai da frente!”. E eu pensando por que raios o alarme de emergência não tocava, “de certo é trote”, foi o que me veio.

Alguém disse que a rua estava cedendo e prestes a desmoronar, que havia um buraco e alguns dos carros no estacionamento já haviam desabado – pensei no meu, lembrei que tenho seguro. Outros falavam em explosão. Era algo nas obras do metrô. Quase todos achavam que o prédio cairia dali há pouco. Tinha gente que não achava nada, só descia. Eu achei que era piada.

Já no térreo, me deu uma tontura, eram muitos andares, aquela descida circular. No fim da linha dei de cara com dois sujeitos recostados na mureta e fumando em paz, nada do pânico de minutos atrás. “Ai minha panturrilha!”. Mas afinal, se a ordem era evacuar, que eu fosse então para fora do prédio, onde vi todo um mundo reunido, quase unânimes a ostentar a mesmíssima expressão.

Procurei um rosto conhecido. Bebi um golezinho d’água – antes de sair, lembrei também de passar a mão na garrafinha descartável – e fui para a rua. Alguém contou uma versão mais convincente dos fatos: aconteceu um desabamento nas obras do metrô, que fica ali na rua ao lado e um buraco gigante se formou, engolindo carros, caminhões, trator e casas. Era bom tomar cuidado porque ainda tinha terra caindo e ninguém sabia ao certo o que poderia acontecer.

Um colega tinha estacionado o carro daquele lado, seguimos na direção do acidente. A poucos metros do local tivemos que voltar porque a polícia começou a isolar a área. Aquelas fitas amarelas nos forçavam a recuar e lá no fundo, mais atrás, só deu tempo de ver um caminhão tombado com as rodas pro ar e, mais na frente, a beirada da cratera, que ali então, eu nem sabia de que tamanho era. O carro do colega, sabe-se lá que fim levara. Minhas panturrilhas eu já quase nem sentia.

Encontrei um outro conhecido, ofegante, todo suado, que confirmou a versão anterior. “Vi tudo da janela”, ele disse, “o asfalto rasgando como papel e engolindo tudo o que tinha na rua. Foi caminhão, carro, muro, tudo”. Olhei para a cara dele e curioso, perguntei “e tinha gente também?”. Respirando cansado ele disse que “tinha sim, no caminhão, o cara que dirigia. Além do povo que trabalhava lá no fundo”.

Então a aventura perdeu a graça.

Ouvi uns dois operários contando da correria dos colegas para escapar da nuvem de poeira atrás deles. Vi uma moça voltando do local, chorando em desespero porque viu o carro dentro do buraco. Escutei um funcionário do metrô gritando para eu sair de baixo da rede elétrica porque corria o risco de os fios caírem. Me dei conta de que aquilo deveria ser maior e mais grave do que eu imaginava e que, afinal de contas, não era nada bacana ir pra casa mais cedo na sexta-feira se fosse por causa disso.

O que são as panturrilhas?

Voltei calado para a frente do prédio e ouvi um sujeito dizer ao megafone que “aparentemente” não corríamos risco. De qualquer forma, ouvi ele falar também em “bom fim de semana a todos” e presumi que, aparentemente, o melhor negócio seria ir para casa.

Dei um tempo. Acalmei os ânimos, comprei um sorvete e fui até meu carro. Antes de sair pela rua deserta interditada, subi até a cobertura do estacionamento para tentar enxergar o cenário lá de cima. Primeiro eu vi barro, vi um guindaste torto, vi uma bagunça nas ruas, vi um monte de helicópteros que zumbiam sobre minha cabeça e vi então a cratera imensa. Caramba, o que era aquilo!?

Caminhõezinhos de brinquedo num buraco feito no barro? Tudo parecia de mentira. Mas não era, as sirenes tornavam a realidade mais densa. Denso também era o ar, cheio de pó, cheio de interrogações, cheio de folhas girando numa ventania que anunciava chuva, mesmo sob sol ardente. Eu nunca havia visto algo como aquilo. Pisquei os olhos, consciente de que aquilo marcaria a história da cidade em que nasci. Deveria marcar, “mas esse povo esquece rápido”, é coisa que só penso agora.

Olhei para o lado e dentre a meia dúzia de embasbacados que observei mirando o acidente, puxei assunto com um sujeito, expressando uma esperança de “tomara Deus que ninguém tenha morrido”. Sem nem me olhar na cara ele concordou, “tomara”. Nem lembro mais o que falamos depois disso.

Peguei o carro, liguei o rádio, tocava uma baladinha, sintonizei a freqüência de notícias e uma chamada falava do acidente. A repórter, a caminho, tentava chegar no local. Eu variava, “de que adianta? Agora já foi, agora eu já sei... é feio demais”.

A cidade calma, mês de férias, sol de verão, transito livre como nunca, como é que pode? Em casa, acessei a internet e vi as primeiras imagens, sob créditos de amigos meus aqui na empresa. Liguei a TV, e já tinham imagens aéreas, ao vivo, lá no canal 7. ”Ahn, os helicópteros...”, captei.

E ali na tela eu vi tudo de novo, eu quase que me vi. Mas, ali já parecia mentira. Não dá para acreditar muito em televisão. Aquela é a tela em que eu vejo o 007, assisto ao Chaves, onde passo, zapeando sem querer querendo, pelo Ronie Von e seus genéricos da Ultrafarma. Na tela tudo parece artificial, uma ficção em que daqui a pouco o mocinho aparece e salva todo mundo. Nessas horas, cadê o Duro de Matar?

Na minha mente sim, meu Deus, aquilo me batia feito estaca. No mesmo ritmo tocava a toda hora o telefone celular, eram os amigos preocupados:

- Caiu no buraco?

Não, não caí. Mas acho que, desde então, caí um pouco mais na realidade. Uma que nem imaginei que existia. De que, com panturrilhas firmes ou não, um passo em falso pode definir muita coisa sobre onde estaremos daqui a pouco. Que vida fugaz, que coisa!, que escolhas ainda posso fazer para fazer o planeta e as pessoas e os relacionamentos e a vida serem um tanto melhores?

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Todo o tempo do mundo

por Henrique Matos



Nesse exato momento percebo que há vinte minutos eu parei uma tarefa importantíssima, urgentíssima e atrasadíssima para seguir o impulso de escrever um texto. E então me percebo mais uma vez diante de um dos defeitos que menos gosto de ver em mim: falta de concentração.

Como são quase todos os defeitos, esse também é daqueles que às vezes viram qualidade. Na contramão da minha dispersão exagerada, me sinto motivado em saber que minha lista de tarefas é maior do que o tempo para realiza-las. Apesar de começar tarde, dificilmente atraso. É justamente nessas horas que me supero (e espero que aconteça o mesmo hoje, com as tantas tarefas que deixei de lado para escrever esses parágrafos).

E fico pensando (mas não por muito tempo porque senão eu perco a concentração): e se eu não tivesse mais prazo para realizar tantas coisas? E se os dias já não tivessem fim e todo o tempo me fosse dado para cumprir sonhos, planos e objetivos?

E volto a pensar: mas não é assim que as coisas são?

Estou espantado em notar que essa é uma realidade cada vez mais próxima na curta vida que temos nessa terra. Num ímpeto escatológico, fico a interrogar: como é que vou me virar quando estiver no céu, com toda a eternidade diante de mim? Não haverá tempo, começo ou fim, datas... o que faremos então?

Cá entre nós, não acho que no dia em que bater as botas – e vá lá, as asas –, acordarei diante de Deus, com uma túnica branca, cabelo encaracolado, a capacidade automática de administrar o tempo (que tempo?) e habilidades musicais instantâneas para tocar harpa. Bom, a menos que exista algum estágio preparatório ou um programa de integração para iniciantes.

A verdade é que não consigo conceber direito a idéia de eternidade porque essa nunca me soa natural. Isso, ao mesmo tempo em que acredito que pensar em uma vida finita seja tão doloroso para todos nós justamente porque somos frutos eternos.

Talvez por isso, Jesus tenha dito o célebre “basta a cada dia o seu próprio mal” no sermão em que tratou sobre a ansiedade do homem no dia-a-dia (Mateus 6). Temos coisas mais importantes a fazer!

Qualquer tempo pode ser curto quando visto sob a ótica da brevidade da vida terrena, mas posto em comparação à eternidade, não experimentamos nada. Diante do eterno esse pequeno fragmento de vida natural é todo o tempo que temos para plantar e regar os frutos que colheremos para sempre.

Pois é, preciso me organizar. Ou deixarei para realizar minhas grandes obras quando o tempo já for curto demais. Quer dizer, como lá sei eu quanto tempo ainda tenho?

E você, como você vai aproveitar os poucos anos que lhe servirão para abrir as portas da eternidade?

Bem, tudo começa com uma escolha...

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Momento de lucidez

por Henrique Matos

Aquela vontade que não cessa. A vontade de seguir os conselhos dessa doce voz, de responder aos santos impulsos, de realizar o que de fato cremos como verdade e justiça.

Mas, por que não faço? Por que não sou?

É o desejo cru da santidade, de deixar cair a máscara do trabalho pelo dinheiro, de ver ruir o consumo desnecessário em que vivemos. É querer não querer aparecer e ser maior do que deveríamos.

A angústia por não mentir, a incessante expectativa em não pecar, não desviar o olhar, não titubear no julgamento. É o querer pôr freio na língua e ter os passos retos.

O caminho da retidão, da entrega, de viver aos pés das letras da Palavra que nos aconselha o amor verdadeiro ao próximo, tal qual o temos por nós mesmos. E é deixar tudo por esse amor, entregar a vida toda por aquele se entregou totalmente por nós.

Viver para caridade, para as pessoas. Ajudar a curar suas feridas, liberta-los das prisões, vesti-los de sua nudez, guia-los na escuridão, auxilia-los em suas necessidades. Ainda que seja eu mesmo um enfermo, cativo, nu, cego e pobre.

Sou salvo, não por merecimento, sim por misericórdia. E essa graça me basta. Porque sei nesse instante – como nem sempre acontece – que o poder de meu Pai se aperfeiçoa nas tantas fraquezas que tenho. Hoje sou filho, pequeno Cristo.

* * *

Essa busca... na maior parte das vezes se apaga, passa incólume na rotina, nos dias que se vão sem que sequer consigamos parar e pensar. É preciso parar e pensar. A reflexão verdadeira nos leva à essência do que somos, onde habita a verdade, onde fala o Espírito.

E Deus mesmo mora ali, no coração, na mente, no estômago, na região inescrutável de nosso ser. Na intimidade do avesso é que podemos ver sua impressão e as cicatrizes e as costuras e marcas deixadas pela sua intervenção. E só do avesso, esse mesmo, é que mostramos quem realmente somos.

Pela graça de Deus somos o que somos, na paráfrase plural do desabafo de Paulo. Mas estamos mais próximos do que deveríamos ser quando acometidos por esses ímpetos de lucidez e santidade. Pudera eu ser sempre assim.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Caminho seguro

por Henrique Matos



Josafá! Se o nome não fosse tão feio eu o daria a um futuro filho (é claro que minha esposa não sabe disso). Mas o que me encanta nesse homem não é exatamente a beleza de seu nome (ou nesse caso, a falta dela), mas sua fé tão sincera.

A frase registrada no livro de 2 Crônicas me inspira. Cercado por inimigos que vinham ataca-lo, esse rei orou: “pois não temos força para enfrentar esse exército imenso que vem nos atacar. Não sabemos o que fazer, mas os nossos olhos se voltam para ti”. E seu exército seguiu para o campo cantando músicas de adoração. Naquele dia, o povo de Josafá venceu a guerra sem precisar levantar uma espada.

Ter os olhos em Deus. Não há batalha impossível ao seu lado, não há alegria completa sem a sua presença.

Deus é Pai. Que cria, disciplina e ensina. Pai que estende a mão para levar seus filhos na direção certa. E de mãos dadas com ele, só assim, é que poderemos trilhar os seus caminhos.

Faça-se o dia claro ou a escuridão da noite. Ponha-se o sol num entardecer ou venha no horizonte a tempestade. Andemos no topo da montanha ou num vale de sombras. Não importa, qualquer caminho é possível, todo momento é seguro quando estamos com Deus.

A dor é superável, a alegria é sublime, o amor é intenso. As dificuldades são duras, mas possíveis. É nele que está a resposta, ele é o sabor da vitória, é a força e o poder. É nele que temos novo fôlego.

Porque a fé, ora se não, a fé não é confiar e esperar o espetacular, a fé não elimina a dúvida, a tentação ou a dor. A fé, ora sim, é a crença natural, é o saber pelo simples saber, é crer apesar da dúvida, é fruto da graça divina, é presente de Deus Pai.

O Pai. Que se coloca à mostra para os que enxergam, fala o tempo todo aos ouvidos que lhe são sensíveis e tem sempre a mão estendida para um filho perdido. Atento ao primeiro pedido de colo.

Chame esse filho João, José, Joaquim ou... Josafá.