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João e o pé de...

por Henrique Matos Ainda hoje eu me lembro daquelas experiências. Não era preciso prática e nem tão pouco habilidade para se ver algo surpreendente, como num milagre. Na verdade, bastava que se plantasse... e via-se rapidamente o resultado. A receita, tão simples, envolvia muito pouco: um copo de plástico, um pedaço de algodão, alguns mililitros de água e dois pequenos feijões embalados no algodão. Esperava-se dois ou três dias e finalmente era possível ver aquele pequeno ramo verde, que na minha infância breve parecia crescido tal como uma (promissora) árvore. E esperando, eu pensava, se passassem mais uma semana ou duas, o copo seria destruído pela grandeza daquele meu pé de feijão, capaz de romper algodões, terras e tal como na história, me levar aos céus. E aí, talvez por isso, minha mãe não me deixava prosseguir na experiência que transformaria o mundo (bem, espero que você seja capaz de considerar essa inventividade infantil). Há pouco tempo – alguns minutos para ser exato – eu l...

Daqueles dias

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por Henrique Matos Às vezes chego em casa cansado. Um dia duro de trabalho, trânsito na cidade, contas para pagar, preocupações que vêm à mente. E então, ao seu lado, não preciso dizer nada. Sei que ali eu descanso, esqueço e encontro a paz. Com você eu não preciso saber as respostas, não preciso ser herói, não preciso ser um adulto bem resolvido ou dessa gente que inventa qualquer assunto para o clima não ficar sem graça. Lembro, em alguns desses momentos, de palavras que ouvi em outras horas: “Às vezes, entre dois amigos, o silêncio já diz muita coisa”. É verdade. Eu só preciso dizer que não suporto o silêncio sem a sua presença. Tem momentos em que minha ansiedade me afoga, minha concentração passa longe e até parece que eu sou incapaz de terminar algo. A mente voa. Tenho dúvidas. Os sonhos ficam distorcidos, as certezas... bem, acho não tão certas assim. Cada passo em frente parece que pesa um pouco mais. E eu me encho das perguntas cujas respostas nunca soube. Mas, o que de mim vo...

Analogias não bastam

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por Henrique Matos “Alegrem-se na esperança, sejam pacientes na tribulação, perseverem na oração” (Romanos 12:12). Existem situações em que as ilustrações não resolvem. E também tampouco ajudam. São momentos que exemplos e gracejos são incapazes de retratar. Luzes no fim de túneis, Davis vencendo Golias, vales escuros sendo cruzados por valentes guerreiros, faróis reluzentes nos portos frente a penumbra solitária da noite. Não, nessas horas as parábolas nada refletem. Os versículos ecoam e soam apenas como afirmações frágeis de homens que não viviam, ah não, eles não poderiam estar passando por isso! Tampouco dizem algo qualquer uma das palavras escritas. As poesias e registros que florescem desses tais são tão somente exercícios e desabafos atrasados não ditos quando deviam. Momentos em que o mundo parece quieto e sentimos que mesmo os anjos apenas observam. Num suspiro, olhando à volta, notamos um tanto do gesto dos solidários que dedicam-se a consolar a dor, mas mesmo eles não podem...

No olho do furacão

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por Henrique Matos Furacão Katrina. Está em todos os jornais do planeta. Até o momento em que escrevo, foram contados ao menos 200 mortos, milhares de vítimas e prejuízos estimados entre 25 e 100 bilhões de dólares. Segundo fontes, 80% de Nova Orleans pode estar destruída depois de a cidade ter ficado submersa. A maior parte das áreas afetadas está sem acesso a energia elétrica, telefonia, alimentos e água potável. A população pede socorro. Balneários foram cobertos por ondas de até oito metros de altura e em alguns pontos alagados o nível da água chegou a seis metros de profundidade. Todos tentam se proteger da ameaça iminente ao entrar na rota de devastação provocada pelo furacão mais caro da história. Furacões, por definição, são "tempestades ciclônicas com ventos muito fortes que se formam sobre os oceanos nas regiões tropicais" e podem ser classificados em graus de devastação que vão de 1 (para os mais brandos) a 5 (os mais cruéis e catastróficos). Eles são também nomead...

Procurando a visão

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por Henrique Matos Eu revirava na cama e procurava no meu travesseiro o descanso para passar mais uma noite. Queria eu que fosse só mais uma, como outra qualquer. Mas não seria assim tão fácil, algo me incomodava profundamente e aquilo parecia estar plantado dentro de mim. E eu nem podia dizer que passaria a madrugada de olhos abertos porque era justamente um deles (peraí, qual mesmo?) que insistia em coçar, e coçar, e coçar desesperadamente. Lavei, esfreguei, tentei enfiar o dedo indicador lá dentro para tirar o que quer que estivesse ali, fosse um cisco, fosse um tronco. Mas nada parecia resolver. Depois de um tempo insistindo em não levantar ou ceder àquele sagaz inimigo da paz humana, resolvi tentar o óbvio: fui – caolho – à caixinha de remédios, peguei o frasco de colírio e depois de molhar toda a testa e a bochecha, deixei que duas daquelas pequenas gotas inundassem aquele território. Ah-ahh! Regozijo, paz, conforto, o alívio da pureza. Foram apenas dois breves minutos para que m...

Uma manhã em Londres – O amor nunca falha

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por Henrique Matos Londres, 7 de julho – O Big Ben marca 9h15 na capital britânica. Nos primeiros números da Woburn Place, dois guarda-chuvas estavam abertos naquela calçada, aguardando pelo ônibus das 9h21. No primeiro deles, um garoto sonolento, com seus onze anos, pequeno e magro, levando nas costas uma mochila encardida e no braço um livro escolar. No outro, protegendo-se da garoa com um guarda-chuvas estranhamente florido, um homem moreno, bigode grosso e com seus trinta e tantos anos também esperava o transporte chegar. No horário previsto surgiu então na esquina o veículo vermelho de dois andares e parando no ponto, recolheu os passageiros. Os assentos, praticamente ocupados, deixavam apenas dois lugares livres. O garoto se adiantou, ocupou o assento perto da janela e acenou para o homem: - Sente-se aqui – ofereceu convidativo – guardei o lugar para o senhor. O homem, com o rosto sério, aceitou o convite mas não disse nada. Ele parecia um bocado inquieto, vestia um casaco grosso...

O Evangelho do Desencapetamento e uma dúvida cruel

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por Henrique Matos Uma dúvida me tomou nas últimas semanas e sem ter com quem partilhar - além dos já cansados ouvidos de minha amada e paciente esposa - "arresolvi" trazê-los para esse espaço. Pois é que, diante dos atentados que aterrorizam o mundo nos últimos anos, leio que alguns estudiosos alertam para o perigo do preconceito por parte do ocidente contra as comunidades árabes ao redor do planeta e principalmente, uma generalização de sentimentos discriminatórios para com os muçulmanos. Sabe-se que os aderentes dessas seitas e grupos terroristas são uma parte menor no total de 1,5 bilhões de muçulmanos no mundo todo, mas que de toda forma, essa reação global defensiva atinge e dificulta a vida de outros milhares de inocentes que acabam por carregar a culpa sobre as atrocidades de outros. E nesse cenário, o que se recomenda aos líderes religiosos é que se defendam, expondo seu sentimento de repúdio aos ataques, mobilizando suas comunidades e combatendo a pregação criminosa...

Ensaio sobre intercessão

por Henrique Matos - Nunca pensei em criar minha filha assim, mas se Deus quiser, eu vou vencer. Depois de alguns minutos, foi essa a frase que me derreteu por dentro e fez com que eu perdesse a concentração na leitura e prestasse atenção àquelas palavras tímidas e rápidas do desconhecido sentado à minha frente. Seu olhar parecia perdido em todo o movimento das pessoas e no pequeno espaço do vagão de trem, mas parecia encontrar um refúgio quando olhava para a menina de 7 ou 8 anos brincando do seu lado, alheia a tudo o que lhe acontecia e à sua preocupação desabafada. E era nessas horas que ele soltava sem querer um sorriso feliz, que parecia meio engasgado no meio de tanta preocupação. Dos poucos e confusos instantes em que estive com Evaldo (seu nome foi a última coisa que descobri), saí pensando na lição de vida que tinha acabado de receber e no que eu poderia escrever sobre sua história. Mas aí percebi que não valia a pena lição ou texto algum, eu precisava mesmo era cumprir a prom...

O eterno e o passageiro

por Henrique Matos Vi agora há pouco um senhor, daqueles bem senhorezinhos mesmo. Já idoso, andava com certa dificuldade, meio curvado, mancando, ajudado por uma bengala em uma das mãos e o casaco grosso de lã apoiado sobre o outro braço dobrado. Embaixo da boina, seu rosto tinha a pele um tanto manchada pelos anos e tanto mais enrugada pelos efeitos da gravidade. Seguíamos nós dois, na plataforma de uma estação de trem, rumo a um ponto comum: a escada de seus trinta e poucos degraus que nos levaria à rua. Sinto uma compaixão irresistível e desconfortável por idosos que me faz ser gentil de uma forma que normalmente não o sou. Acelerei o passo, cheguei mais perto e ofereci ajuda em sua aventura: “O senhor quer ajuda?”, perguntei. Mas ele não ouviu e ficou me encarando com olhar sério, esperando que eu dissesse algo. Repeti, agora em tom mais alto: “O senhor quer ajuda? Para subir...”, disse apontando para a escada. Então ele ouviu e para minha surpresa respondeu: “Não, pode subir. Eu v...

Perucas imperiais

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por Henrique Matos "A religião está no coração, não nos joelhos" (Jerold Douglas William). Há poucos dias li uma notícia que me deixou intrigado. Na verdade, eu já era intrigado pelo tema da história em si e as lembranças que me traziam. E por mais bizarro que pareça, acho que merece ser mencionado. Eu não sabia e talvez você também não, mas descobri a origem daquelas perucas brancas e compridas que os nobres usaram por tanto tempo no passado. Ei-la: Aconteceu que o Rei Luís alguma-coisa-em-números-romanos (desculpe, não lembro qual foi), muito vaidoso, notou que estava ficando calvo. Ordenou então a alguns de seus súditos que lhe providenciassem uma peruca para cobrir a falha e, feito isso, passou a usa-la. Sua corte, notando a diferença e sendo então muito bajuladora, viu no visual do rei uma forma de agrada-lo e gradativamente adotou também as perucas. Com tal gesto, em pouco tempo, o ornamento era utilizado em toda a França. Mas não bastasse, eis que passado algum tempo, ...