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Amigos de Judas

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por Henrique Matos Há muitos dias ele vinha sofrendo. Tudo já não era como antes e doía saber que muito do que lhe ocorria era conseqüência de decisões erradas e imaturas. Mas em meio à confusão já não conseguia encontrar o caminho de volta. Fazia meses que não nos víamos, a última vez foi um “e aí, como vai?” superficial em um ponto público da cidade grande. Mas a conversa boa e devagar, a comunhão, já não aconteciam há tempos. Na verdade nunca fomos muito próximos, nem realmente amigos eu diria. Mas sem entender o motivo – acho que são as coisas loucas dessa fé – estranhamente, nesse sentimento cúmplice, eu sempre sinto quando algo errado lhe acontece. E não foi diferente neste então, quando nos vimos recentemente. Na igreja cheia, as famílias reunidas, os abraços gratuitos de cumprimento, as músicas de celebração, o senta e levanta dos bancos, a ministração pastoral, o momento de reflexão. E a todo momento, no banco atrás de mim eu percebia outra vez que embaixo da fachada sorrident...

Ansiedades, probabilidades e estatísticas

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por Henrique Matos "Suponho que viver a vida a cada dia (...) é precisamente o que nós temos que aprender – mesmo quando o velho Adão em mim às vezes alega que, se Deus quisesse me fazer viver como os lírios do campo, por que não me deu a mesma dose de nervos e imaginação que ele! Ou será esse precisamente o ponto, o propósito exato deste paradoxo divino e audacioso chamado ser humano – fazer, dotado de razão, tudo aquilo que outros seres fazem sem ela?" (C. S. Lewis). Às vezes gostaria de saber qual seria a probabilidade estatística - dessas de um número tanto para tantos milhões - de realmente acontecer o que se fez em certas ocasiões. Sei que o assunto não é novo, hoje em dia parece até que andam em evidência os filmes que mostram o passado de um Fulano e o quão diferente a vida dele seria se uma simples alteração, atitude ou gesto fossem mudados. Se eu não tivesse - à revelia, diga-se aqui - sido transferido de departamento em meu primeiro emprego, jamais conheceria aquel...

Adeus às armas

por Henrique Matos Nos próximos dias você e eu, cidadãos brasileiros, eleitores, seremos convocados a enfrentar uma grande fila em uma escola de nossa cidade para prestar o voto sobre a pergunta que os parlamentares decidiram julgar como responsabilidade nossa: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”. Contrariando a vontade própria mas obedecendo ao impulso inevitável, senti-me no dever de expor o assunto sob uma ótica bíblica, visão essa que também busco, como resultado da frustrada tentativa de chegar em uma resposta sobre meu voto. Confesso que pensando de forma racional, me divido entre os argumentos das duas partes. Mas, ao menos agora, que fiquem os dados como base de ponderação e limitados aos comerciais televisivos recheados de celebridades. Não pretendo aqui citar as muitas estatísticas que tentam nos convencer, mas no que me cabe, gostaria de refletir sobre as Escrituras e o que nela se diz a respeito. Um estudo breve é suficiente para saber que n...

Sessão nostalgia

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por Henrique Matos Tarde chuvosa, tempo cinzento, dia sonolento... um momento ideal para relembrar os dias da infância distante, das horas de sessão da tarde deitado no sofá, da nostalgia latente de uma meninice que a vida adulta já encobriu. Ai que vontade! Um chá quente com biscoito água e sal em casa... Mas não posso, é dia de compromisso, hora da responsabilidade. E assim sendo, como é, aproveito a circunstância para ser só um tiquinho mais nostálgico, aqui nesse tempo, numa conversa de compadres sobre fatos distantes do noticiário que reluz em minha tela e borra os meus dedões. E sobre o passado, nele mesmo é que estive pensando e queria saber se você, por acaso assim, se “alembra” de um desastre natural que aconteceu já há muito tempo. Acho que há tanto que nem sei se ainda tem espaço em nossas remotas lembranças. A mídia eu sei que já esqueceu, mas com um tanto de paciência, posso ao menos lembrar o nome... tsunami. É isso aí, uma onda gigante que assolou alguns países no sul da...

João e o pé de...

por Henrique Matos Ainda hoje eu me lembro daquelas experiências. Não era preciso prática e nem tão pouco habilidade para se ver algo surpreendente, como num milagre. Na verdade, bastava que se plantasse... e via-se rapidamente o resultado. A receita, tão simples, envolvia muito pouco: um copo de plástico, um pedaço de algodão, alguns mililitros de água e dois pequenos feijões embalados no algodão. Esperava-se dois ou três dias e finalmente era possível ver aquele pequeno ramo verde, que na minha infância breve parecia crescido tal como uma (promissora) árvore. E esperando, eu pensava, se passassem mais uma semana ou duas, o copo seria destruído pela grandeza daquele meu pé de feijão, capaz de romper algodões, terras e tal como na história, me levar aos céus. E aí, talvez por isso, minha mãe não me deixava prosseguir na experiência que transformaria o mundo (bem, espero que você seja capaz de considerar essa inventividade infantil). Há pouco tempo – alguns minutos para ser exato – eu l...

Daqueles dias

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por Henrique Matos Às vezes chego em casa cansado. Um dia duro de trabalho, trânsito na cidade, contas para pagar, preocupações que vêm à mente. E então, ao seu lado, não preciso dizer nada. Sei que ali eu descanso, esqueço e encontro a paz. Com você eu não preciso saber as respostas, não preciso ser herói, não preciso ser um adulto bem resolvido ou dessa gente que inventa qualquer assunto para o clima não ficar sem graça. Lembro, em alguns desses momentos, de palavras que ouvi em outras horas: “Às vezes, entre dois amigos, o silêncio já diz muita coisa”. É verdade. Eu só preciso dizer que não suporto o silêncio sem a sua presença. Tem momentos em que minha ansiedade me afoga, minha concentração passa longe e até parece que eu sou incapaz de terminar algo. A mente voa. Tenho dúvidas. Os sonhos ficam distorcidos, as certezas... bem, acho não tão certas assim. Cada passo em frente parece que pesa um pouco mais. E eu me encho das perguntas cujas respostas nunca soube. Mas, o que de mim vo...

Analogias não bastam

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por Henrique Matos “Alegrem-se na esperança, sejam pacientes na tribulação, perseverem na oração” (Romanos 12:12). Existem situações em que as ilustrações não resolvem. E também tampouco ajudam. São momentos que exemplos e gracejos são incapazes de retratar. Luzes no fim de túneis, Davis vencendo Golias, vales escuros sendo cruzados por valentes guerreiros, faróis reluzentes nos portos frente a penumbra solitária da noite. Não, nessas horas as parábolas nada refletem. Os versículos ecoam e soam apenas como afirmações frágeis de homens que não viviam, ah não, eles não poderiam estar passando por isso! Tampouco dizem algo qualquer uma das palavras escritas. As poesias e registros que florescem desses tais são tão somente exercícios e desabafos atrasados não ditos quando deviam. Momentos em que o mundo parece quieto e sentimos que mesmo os anjos apenas observam. Num suspiro, olhando à volta, notamos um tanto do gesto dos solidários que dedicam-se a consolar a dor, mas mesmo eles não podem...

No olho do furacão

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por Henrique Matos Furacão Katrina. Está em todos os jornais do planeta. Até o momento em que escrevo, foram contados ao menos 200 mortos, milhares de vítimas e prejuízos estimados entre 25 e 100 bilhões de dólares. Segundo fontes, 80% de Nova Orleans pode estar destruída depois de a cidade ter ficado submersa. A maior parte das áreas afetadas está sem acesso a energia elétrica, telefonia, alimentos e água potável. A população pede socorro. Balneários foram cobertos por ondas de até oito metros de altura e em alguns pontos alagados o nível da água chegou a seis metros de profundidade. Todos tentam se proteger da ameaça iminente ao entrar na rota de devastação provocada pelo furacão mais caro da história. Furacões, por definição, são "tempestades ciclônicas com ventos muito fortes que se formam sobre os oceanos nas regiões tropicais" e podem ser classificados em graus de devastação que vão de 1 (para os mais brandos) a 5 (os mais cruéis e catastróficos). Eles são também nomead...

Procurando a visão

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por Henrique Matos Eu revirava na cama e procurava no meu travesseiro o descanso para passar mais uma noite. Queria eu que fosse só mais uma, como outra qualquer. Mas não seria assim tão fácil, algo me incomodava profundamente e aquilo parecia estar plantado dentro de mim. E eu nem podia dizer que passaria a madrugada de olhos abertos porque era justamente um deles (peraí, qual mesmo?) que insistia em coçar, e coçar, e coçar desesperadamente. Lavei, esfreguei, tentei enfiar o dedo indicador lá dentro para tirar o que quer que estivesse ali, fosse um cisco, fosse um tronco. Mas nada parecia resolver. Depois de um tempo insistindo em não levantar ou ceder àquele sagaz inimigo da paz humana, resolvi tentar o óbvio: fui – caolho – à caixinha de remédios, peguei o frasco de colírio e depois de molhar toda a testa e a bochecha, deixei que duas daquelas pequenas gotas inundassem aquele território. Ah-ahh! Regozijo, paz, conforto, o alívio da pureza. Foram apenas dois breves minutos para que m...

Uma manhã em Londres – O amor nunca falha

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por Henrique Matos Londres, 7 de julho – O Big Ben marca 9h15 na capital britânica. Nos primeiros números da Woburn Place, dois guarda-chuvas estavam abertos naquela calçada, aguardando pelo ônibus das 9h21. No primeiro deles, um garoto sonolento, com seus onze anos, pequeno e magro, levando nas costas uma mochila encardida e no braço um livro escolar. No outro, protegendo-se da garoa com um guarda-chuvas estranhamente florido, um homem moreno, bigode grosso e com seus trinta e tantos anos também esperava o transporte chegar. No horário previsto surgiu então na esquina o veículo vermelho de dois andares e parando no ponto, recolheu os passageiros. Os assentos, praticamente ocupados, deixavam apenas dois lugares livres. O garoto se adiantou, ocupou o assento perto da janela e acenou para o homem: - Sente-se aqui – ofereceu convidativo – guardei o lugar para o senhor. O homem, com o rosto sério, aceitou o convite mas não disse nada. Ele parecia um bocado inquieto, vestia um casaco grosso...