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Um instante

por Henrique Matos Ele abaixou a cabeça e retirou-se angustiado. Seus olhos marejaram, a garganta travou e seu peito doía incessantemente. Então se isolou, entregou-se e chorou. Percebeu o que havia feito, que grande bobagem! Como era possível? Há poucas horas suas palavras eram outras, sua firmeza surpreendia, sua fé impressionava. Era uma rocha! Mas agora, era a escória dos homens, um pecador imundo, em nada o santo ou escolhido dentre tantos. As lembranças dos últimos meses lhe vinham à memória. As grandes aventuras, as experiências de uma nova vida, pescador de homens. Eram muito nítidos aqueles três anos. Surgira entre eles mais do que um relacionamento disciplinar de mestre para servo, tornaram-se amigos íntimos. Partilhou suas dificuldades, foi franco com suas dúvidas e sentimentos - por vezes até controversos. Foi fraco, foi homem, foi filho e foi irmão. Viajaram juntos, percorreram toda a Galiléia e a Judéia. Dormiram no deserto, andaram milhas e milhas, comeram da mesma panel...

O silêncio

por Henrique Matos O silêncio. Se tem algo na crucificação de Jesus que me espanta é o silêncio. É claro que dia após dia ainda me sinto comovido com todo o propósito de Seu sofrimento por nós e a salvação que há n'Ele. Mas esse fato (como Ele mesmo diria) já "está consumado" nos corações e na história. Mas o silêncio... Porquê Ele não falou nada? Porquê sofreu quieto, sem reclamar ou se defender? Porquê não condenou aqueles pecadores que blasfemaram e não quiseram crer? E se ali, na cruz, Ele dissesse: "Estou aqui por causa de vocês, ingratos. Estou morrendo no seu lugar!" Isso mudaria alguma coisa? Ele deixaria de ser o Filho de Deus e Salvador da humanidade? Mas preferiu sofrer quieto. Em Suas últimas horas neste mundo não pregou o arrependimento, nem falou de morte ou ressurreição, não realizou milagres e tampouco se defendeu. E tantos à sua volta o agrediam com palavras, socos, pontapés, chibatadas, pregos, cravos. Foi humilhado, não reagiu e todos que se d...

Amigo de pecadores

por Henrique Matos Ele ainda é amigo de pecadores. Ainda senta-se à mesa com os publicanos e circula por aí falando com mulheres samaritanas, prostitutas e adúlteras. Ele ainda chama revolucionários para serem discípulos e pescadores de peixes para fisgarem almas. Escolhe jumentos para o conduzirem em meio ao povo, ainda visita a casa daqueles que ninguém mais gosta e prefere a simplicidade à tradições vãs. Ele ainda cura, liberta e salva os homens que a sociedade coloca à margem de seu padrão. Ele ainda conta histórias para entendermos as coisas grandes e sobrenaturais que enxerga com tanta clareza. Ainda nos alimenta com sua palavra renovadora e com pão e peixe multiplicados. Ele ainda chora por seus amigos, ainda remove pedras, montanhas e até ressuscita mortos. Ele ainda tem esperança em sua criação rebelde. Ele ainda sente o toque na orla de sua veste, sente o poder saindo de si e ainda se curva para os que o buscam com fé. Ele ainda faz barro para curar cegos, ainda seca árvores ...

Serviço de entrega

por Henrique Matos "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce" (Fernando Pessoa). Não costumo falar muito sobre evangelização. Para ser sincero, até sofro em saber que não sou muito eficiente na tentativa de levar Cristo às pessoas. Atrapalhado, começo tratando de princípios cristãos, passo por questões teológicas, divago a respeito da Criação e só então chego em pontos mais fáceis de se "digerir" como: salvação, perdão e (até que enfim) Jesus. Em geral, nesse momento, meu amigo já está a ponto de dormir. Sou um desastre, mas sinto-me confortado pelas Escrituras ao acreditar que estou "plantando a semente" e talvez encontre alguém por aí em que frutifique... E sabendo de Seu favor gracioso, que filho não é inspirado pelo mandamento do "ide" que Ele deixou a todos? "Se Ele fez tudo isso pela humanidade, porque então nem todos sabem disso? Preciso fazer a minha parte!". Esse é um pensamento correto e lógico, mas infelizmente não é tão comum....

Sobre guerreiros e pigmeus

por Henrique Matos (O texto abaixo tem como propósito ser uma analogia para a nossa postura dentro das comunidades e em nossa conduta cristã. Reconheço que pode soar um tanto preconceituoso quanto à questões físicas e étnicas de alguns povos, mas isso não condiz com a intenção real, que é sempre a de edificar a caminhada com Cristo - escrevo esse comentário depois do texto já divulgado em outros meios, obrigado ao Tonho pela observação). * * * Alguém disse certa vez, talvez um professor, que existe uma razão para alguns homens serem mais altos do que outros, a exemplo de algumas tribos africanas onde chegam a medir quase dois metros em contraste a certas comunidades de pigmeus, também africanos, que mal chegam a um metro e trinta. Conta a história que no tempo em que nossos ancestrais começaram sua peregrinação pelo mundo, o macho tinha por função sair diariamente para a caça e trazer para casa o alimento que supriria a necessidade de sua família (eram tempos em que as geladeiras não e...

Retratos e semelhanças

por Henrique Matos "A glória de Deus é um ser humano em plenitude de vida" (Ireneu). Fico a pensar por quais ruas ele andou, que caminhos trilhou, que vida levou desde aquele dia, sentado no banco da praça, com seus vinte e poucos anos, protegendo sob sua guarda a noiva que ostenta nos braços. Sei, tão pura e simplesmente, que hoje aquele jovem transformou-se em um pequeno senhor de poucos cabelos brancos que chamo por "meu vô" desde que me entendo por gente. Mas vê-lo no retrato com possivelmente a minha idade, abraçado à minha avó e juntos, sentados no banco da praça no interior, remete a imaginação a tempos em que eu não vivia, tempos sem os dezessete filhos que ele viria a ter. Hoje, conheço e admiro - ainda que à distância fria e desgarrada de um neto adulto - sua bondade simples sem interesses ou jogos. Um homem que separa um tanto do alimento em seu prato para satisfazer a fome curiosa dos pássaros no quintal, que toca todo e qualquer inseto porta a fora a fi...

O troco

por Henrique Matos e Emmanuelle Burci “Não façais mal e o mal não existirá” (Leon Tolstoi) Assim como uma pequena chama na floresta pode se transformar em uma grande queimada, também um ressentimento guardado sem perdão pode, com o passar do tempo, tomar proporções gigantescas e destruir toda beleza naquela que antes era uma terra viva. O fogo mata o que antes era fértil, consumindo o verde reluzente e transformando-o em uma sequidão cinza. Para conter o fogo e impedir a destruição, é preciso esfriar a brasa e aprender a perdoar. Guardar ressentimentos só nos faz sofrer ver todo o resto de nossas emoções serem sugados. Uma segunda opção lógica seria revidar o golpe e fazer justiça com as próprias mãos, mas nesse caso, como no exemplo acima, seria apagar o fogo com mais fogo, seria jogar lenha em uma fogueira. Quando se fazemos um contra-ataque deixamos a posição de vítima e nos igualamos ao agressor. A idéia racional que temos de justiça é dar ao “pecador” uma pena que lhe faça lembrar...

Coração novo

por Henrique Matos Ah, seu eu não soubesse o que é amor e fosse ainda um ignorante, leigo a respeito da Palavra e livre para o pecado. Caminharia em minha inocência, errando, errante pelo mundo, seguiria escravo sem saber de quê, crente na falsa liberdade e abundante dos manjares da carne. Ah, se Seu poder não me tivesse alcançado e meu coração cheio de sombras continuasse a não crer. Então eu não precisaria me arrepender, afinal nem saberia onde pequei, não deveria perdoar pois enfim me é prazeroso revidar o tapa que me ardeu a face e devolver com força a mentira, a traição e o ódio que preenche a alma. Ah, se Ele não tivesse vindo, Sua história me passasse oculta e meu entendimento permanecesse alheio à Sua verdade. Eu seguiria em meu rumo cigano, amando a vaidade, louco e insano, cheio de estupor e maldades planejadas. Ah, se esse mundo não fosse tão dividido e eu não precisasse tanto dessa porção, desse frasco, do carinho do Seu toque e o constrangimento de Teu amor. Poderia eu fic...

Vamos ao zoológico!

por Henrique Matos "Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes" (1 Coríntios 1:27). Nove feridos e seis mortos, esse é o saldo de mendigos agredidos em São Paulo, brutalmente atacados com pancadas na cabeça. Os atos aconteceram durante a madrugada e, segundo depoimentos de testemunhas, um indivíduo trajando roupas pretas fora o responsável pelos ataques a moradores de rua no centro da capital. A polícia investiga, a população se indigna e os moradores de rua protestam. Já há anos eles protestam, mas nada se ouve, eles são mudos, nada se vê, eles são os seres invisíveis que "deletamos" em nossa rotina cotidiana da grande metrópole. Agora sim, porque foram agredidos, as autoridades se interessam em abriga-los em albergues que sempre existiram, mas de portas fechadas aos "seres invisíveis". Agora sim, a imprensa se comove em mostrar o rosto daqueles que por vergonha, ...

Homens das cavernas

por Henrique Matos "As cavernas não são o lugar oportuno para melhorar o estado de ânimo. Existe certa mesmice entre todas elas, não importa em quantas você tenha dormido. Escuras. Úmidas. Frias. Bolorentas. Uma caverna se torna pior ainda quando você é o seu único habitante..." (Gene Edwards no livro "Perfil de Três Reis", p. 39). Quem já esteve em uma caverna entende o que o autor quer dizer. Não há nada de aconchegante naquela rocha, são locais cheios de infiltrações, irregularidades, insetos em suas cavidades, um ambiente gélido e desconfortável. Algumas não têm mais do que poucos metros de profundidade, já outras são tão extensas que mal se pode chegar ao seu fim. Definitivamente, não são lugares onde um homem possa viver em paz. Exalam a solidão, exaltam os ruídos com ecos espantados rasgando o silêncio assustador e as frias trevas em seu interior não são estímulos para a paz de espírito. Uma caverna não é um lugar para se estar sozinho. Em uma rocha dessas, e...