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Tiro ao alvo

por Henrique Matos Nunca fui bom com alvos. Não, eu não falo de minha mira, flechas ou pontaria – com isso eu também não sou lá um Robin Hood, mas o caso aqui é outro – sou ruim em estabelecer metas pessoais. No começo, achava que programar em janeiro todos os planos que cumpriria até dezembro seria mais outra maneira de incluir regras no meu já metódico – e involuntário – estilo de vida. Vejo com admiração os amigos que hoje, fim do primeiro mês, já determinaram os tópicos pelos quais dedicarão tempo, empenho, dinheiro e, principalmente, orações ao longo do ano. Sim, cada alvo precisa ser algo “trabalhado”, corretamente pedido e entregue a Deus com perseverança e fé. Neste ano eu desejo, sinceramente, fazer diferente. Pretendo repetir o que fiz uma vez há alguns anos e anotar em uma folha arrancada de caderno quais são os meus projetos pessoais, profissionais e espirituais para esses onze meses que ainda me restam. Fica evidente, portanto, que meu primeiro e prioritário objetivo para ...

Desaniversário

Por Henrique Matos Imagine só você essa história, coisa dessas absurdas mesmo. Suponha, só por alguns parágrafos, que no fim de semana que chega seja o seu aniversário. Toda expectativa, os preparativos e desde há cerca de um mês, já comentam as pessoas sobre a data. Você afinal, é uma grande personalidade, respeitado por suas idéias e gestos tão nobres, e todos os seus amigos já sabem, só pelo clima, que o esperado dia se aproxima. De repente assim, você se lembra do que lhe contam sobre o dia do seu nascimento, quando de longe, amigos da família trouxeram belos presentes em sua homenagem. Você está também empolgado com essa atmosfera festiva que o cerca e, pelo burburinho das cozinhas e salas de estar, parece que um grande evento se fará. Seu aniversário é, afinal, a data escolhida por muitos dos que o conhecem para se confraternizar. É o dia, talvez o único, em que boa parte das famílias se reúnem, sentam à mesa e celebram. Elas brindam ao amor, à verdade, à paz, à justiça, o ano qu...

Vestindo a camisa

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Por Henrique Matos Dia desses foi meu aniversário. Teve festa, família, bolo, amigos e tantas dessas coisas que só acontecem uma vez no ano e que, particularmente, aprecio muito. De minha esposa – a quem pedi que não me desse nada (ainda que sempre esperando receber algo) – ganhei um presentão que me alegrou demais: a camisa oficial do time para o qual eu torço. Estávamos os dois na cozinha de casa quando tive a surpresa. “Uma prova do meu amor”, disse-me ela, que de fato, gosta tanto de futebol quanto eu gosto de brócolis (ou brócolos, como aprendi outro dia) e, sendo assim, posso imaginar o seu tormento, pobrezinha. É certo que ela me imaginou um tanto mais magro quando fez a compra (talvez pelo antigo manequim da solteirice). Experimentei a camisa apertada e tive o desagrado de ver o seu tecido modelando minha circunférica silhueta. Mais triste então, foi notar no espelho o brasão do time ser distorcido pela minha barriga. Mas sim, seu gesto prova uma boa dose de seu amor, capaz de ...

Amigos de Judas

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por Henrique Matos Há muitos dias ele vinha sofrendo. Tudo já não era como antes e doía saber que muito do que lhe ocorria era conseqüência de decisões erradas e imaturas. Mas em meio à confusão já não conseguia encontrar o caminho de volta. Fazia meses que não nos víamos, a última vez foi um “e aí, como vai?” superficial em um ponto público da cidade grande. Mas a conversa boa e devagar, a comunhão, já não aconteciam há tempos. Na verdade nunca fomos muito próximos, nem realmente amigos eu diria. Mas sem entender o motivo – acho que são as coisas loucas dessa fé – estranhamente, nesse sentimento cúmplice, eu sempre sinto quando algo errado lhe acontece. E não foi diferente neste então, quando nos vimos recentemente. Na igreja cheia, as famílias reunidas, os abraços gratuitos de cumprimento, as músicas de celebração, o senta e levanta dos bancos, a ministração pastoral, o momento de reflexão. E a todo momento, no banco atrás de mim eu percebia outra vez que embaixo da fachada sorrident...

Ansiedades, probabilidades e estatísticas

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por Henrique Matos "Suponho que viver a vida a cada dia (...) é precisamente o que nós temos que aprender – mesmo quando o velho Adão em mim às vezes alega que, se Deus quisesse me fazer viver como os lírios do campo, por que não me deu a mesma dose de nervos e imaginação que ele! Ou será esse precisamente o ponto, o propósito exato deste paradoxo divino e audacioso chamado ser humano – fazer, dotado de razão, tudo aquilo que outros seres fazem sem ela?" (C. S. Lewis). Às vezes gostaria de saber qual seria a probabilidade estatística - dessas de um número tanto para tantos milhões - de realmente acontecer o que se fez em certas ocasiões. Sei que o assunto não é novo, hoje em dia parece até que andam em evidência os filmes que mostram o passado de um Fulano e o quão diferente a vida dele seria se uma simples alteração, atitude ou gesto fossem mudados. Se eu não tivesse - à revelia, diga-se aqui - sido transferido de departamento em meu primeiro emprego, jamais conheceria aquel...

Adeus às armas

por Henrique Matos Nos próximos dias você e eu, cidadãos brasileiros, eleitores, seremos convocados a enfrentar uma grande fila em uma escola de nossa cidade para prestar o voto sobre a pergunta que os parlamentares decidiram julgar como responsabilidade nossa: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”. Contrariando a vontade própria mas obedecendo ao impulso inevitável, senti-me no dever de expor o assunto sob uma ótica bíblica, visão essa que também busco, como resultado da frustrada tentativa de chegar em uma resposta sobre meu voto. Confesso que pensando de forma racional, me divido entre os argumentos das duas partes. Mas, ao menos agora, que fiquem os dados como base de ponderação e limitados aos comerciais televisivos recheados de celebridades. Não pretendo aqui citar as muitas estatísticas que tentam nos convencer, mas no que me cabe, gostaria de refletir sobre as Escrituras e o que nela se diz a respeito. Um estudo breve é suficiente para saber que n...

Sessão nostalgia

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por Henrique Matos Tarde chuvosa, tempo cinzento, dia sonolento... um momento ideal para relembrar os dias da infância distante, das horas de sessão da tarde deitado no sofá, da nostalgia latente de uma meninice que a vida adulta já encobriu. Ai que vontade! Um chá quente com biscoito água e sal em casa... Mas não posso, é dia de compromisso, hora da responsabilidade. E assim sendo, como é, aproveito a circunstância para ser só um tiquinho mais nostálgico, aqui nesse tempo, numa conversa de compadres sobre fatos distantes do noticiário que reluz em minha tela e borra os meus dedões. E sobre o passado, nele mesmo é que estive pensando e queria saber se você, por acaso assim, se “alembra” de um desastre natural que aconteceu já há muito tempo. Acho que há tanto que nem sei se ainda tem espaço em nossas remotas lembranças. A mídia eu sei que já esqueceu, mas com um tanto de paciência, posso ao menos lembrar o nome... tsunami. É isso aí, uma onda gigante que assolou alguns países no sul da...

João e o pé de...

por Henrique Matos Ainda hoje eu me lembro daquelas experiências. Não era preciso prática e nem tão pouco habilidade para se ver algo surpreendente, como num milagre. Na verdade, bastava que se plantasse... e via-se rapidamente o resultado. A receita, tão simples, envolvia muito pouco: um copo de plástico, um pedaço de algodão, alguns mililitros de água e dois pequenos feijões embalados no algodão. Esperava-se dois ou três dias e finalmente era possível ver aquele pequeno ramo verde, que na minha infância breve parecia crescido tal como uma (promissora) árvore. E esperando, eu pensava, se passassem mais uma semana ou duas, o copo seria destruído pela grandeza daquele meu pé de feijão, capaz de romper algodões, terras e tal como na história, me levar aos céus. E aí, talvez por isso, minha mãe não me deixava prosseguir na experiência que transformaria o mundo (bem, espero que você seja capaz de considerar essa inventividade infantil). Há pouco tempo – alguns minutos para ser exato – eu l...

Daqueles dias

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por Henrique Matos Às vezes chego em casa cansado. Um dia duro de trabalho, trânsito na cidade, contas para pagar, preocupações que vêm à mente. E então, ao seu lado, não preciso dizer nada. Sei que ali eu descanso, esqueço e encontro a paz. Com você eu não preciso saber as respostas, não preciso ser herói, não preciso ser um adulto bem resolvido ou dessa gente que inventa qualquer assunto para o clima não ficar sem graça. Lembro, em alguns desses momentos, de palavras que ouvi em outras horas: “Às vezes, entre dois amigos, o silêncio já diz muita coisa”. É verdade. Eu só preciso dizer que não suporto o silêncio sem a sua presença. Tem momentos em que minha ansiedade me afoga, minha concentração passa longe e até parece que eu sou incapaz de terminar algo. A mente voa. Tenho dúvidas. Os sonhos ficam distorcidos, as certezas... bem, acho não tão certas assim. Cada passo em frente parece que pesa um pouco mais. E eu me encho das perguntas cujas respostas nunca soube. Mas, o que de mim vo...

Analogias não bastam

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por Henrique Matos “Alegrem-se na esperança, sejam pacientes na tribulação, perseverem na oração” (Romanos 12:12). Existem situações em que as ilustrações não resolvem. E também tampouco ajudam. São momentos que exemplos e gracejos são incapazes de retratar. Luzes no fim de túneis, Davis vencendo Golias, vales escuros sendo cruzados por valentes guerreiros, faróis reluzentes nos portos frente a penumbra solitária da noite. Não, nessas horas as parábolas nada refletem. Os versículos ecoam e soam apenas como afirmações frágeis de homens que não viviam, ah não, eles não poderiam estar passando por isso! Tampouco dizem algo qualquer uma das palavras escritas. As poesias e registros que florescem desses tais são tão somente exercícios e desabafos atrasados não ditos quando deviam. Momentos em que o mundo parece quieto e sentimos que mesmo os anjos apenas observam. Num suspiro, olhando à volta, notamos um tanto do gesto dos solidários que dedicam-se a consolar a dor, mas mesmo eles não podem...